Aviso de conteúdo: Discussão sobre disforia de gênero e metáforas com ossos e sangue. Não chega a ser extremamente detalhado, mas é um tema presente.
Fic de idol de kpop mas você não precisa saber de nada sobre os artistas envolvidos para ler.
Quando os dois tinham o que chamavam de pequenos problemas corporais, despiam-se por completo e entravam na banheira vazia, um de cada lado, frente a frente, enquanto o umidificador de ar começava a funcionar silenciosamente. Às vezes liam alguma coisa para passar o tempo, algo para preencher a cabeça e evitar prestar atenção aos desconfortos do momento, mas na maioria das vezes permaneciam em silêncio, apenas olhando nos olhos um do outro até que a sensação de estranhamento desaparecesse e eles pudessem ser eles mesmos outra vez.
Seja lá o que “eles mesmos” significasse. Não conversavam sobre isso com muita profundidade. Sobre quem eram ou quem aspiravam ser. Se gostavam da pronúncia em voz alta dos seus nomes de registro, se realmente gostavam do que viam no espelho ou do que as pessoas viam refletido neles. Se preferiam aparar o cabelo e ser forçados a encarar a visão completa do próprio rosto, ou se preferiam deixá-lo crescer além dos ombros e parecer versões estranhas das próprias mães. Se realmente queriam levar o sexo longe demais e ter que decidir qual dos dois odiava menos a ideia de penetrar os ossos do outro.
Talvez fosse por causa de todos aqueles “ses” que eles não falavam sobre isso. Os problemas vinham e eles simplesmente sabiam. Apenas por ver a tensão nos ombros um do outro. O peso da dissonância os arrastando para baixo. Não precisavam verbalizar para o outro compreender. Fantasmas como a disforia podiam ser tão sólidos quanto a sensação palpável das próprias escápulas.
Entrar na banheira ajudava um pouco. Respirar um ar que fizesse sentido, estar na presença de alguém que fizesse sentido. Alguém que se sentia tão deslocado no mundo quanto ele. Alguém que simplesmente entenderia sem que ele precisasse formular explicações elaboradas, meticulosas e ponderadas em prol do conforto de ume ente queride. Alguém para quem ele não precisasse embelezar os próprios sentimentos. Alguém em quem pudesse confiar que ser visto como homem era como ter seus ossos escavados com pinças minúsculas e agonizantes que o faziam querer arrancá-los de si com os próprios dentes, bem longe daquela pele que seria sempre interpretada erroneamente por todes.
Talvez aquela compreensão mútua fosse parte do que o fazia desejar tanto Taeyang, embora fosse de longe um dos maiores motivos. Mas era um importante, por mais estranho que soasse, desejar alguém por ansiar se desossar tanto quanto ele mesmo.
Apesar da náusea do desconforto, era nesses momentos, quando os dois se olhavam nos olhos, que o desejo se intensificava. Porque quando Jongseob fitava o próprio reflexo nos olhos do outro, quando via os mesmos traços com os quais mantinha uma relação de amor e ódio, era quando conseguia enxergar a si mesmo. Ele mesmo, apenas ele mesmo. Nenhuma imagem imposta. Nenhum rapaz que os outros construíram para ele sem permissão.
Dado o suavizar do olhar tenso do outro, gostava de pensar que era o mesmo para ele. Que ele podia oferecer o mesmo conforto. E talvez, apenas talvez, que ele fosse desejado igualmente. Como o Jongseob genuíno, seu eu nu e cru.
Isso soava bom — bom no sentido de simplesmente tudo o que importava na vida — mesmo com o sentimento de carnificina ainda fervilhando nas pontas dos seus caninos.
Quando esses pensamentos o dominaram, de repente foi muito difícil se agarrar ao silêncio em um daqueles momentos na banheira. Pela primeira vez, olhando para aqueles olhos que eram o único espelho que ele poderia querer, sentiu uma vontade incontrolável de dizer algo, qualquer coisa, sem ter certeza de como expressar. Era mais fácil ser lido como um mapa do que como palavras transcritas de um velho transmissor quebrado.
Mas ele tentou, abriu a boca mesmo assim. Antes que pudesse sequer encontrar a própria voz, Taeyang já havia erguido as sobrancelhas para ele. Convidativo mesmo com a quebra do ritual.
Jongseob exalou profundamente. Essa adaptabilidade só o fazia desejá-lo mais, com uma fome indescritível.
Suas palavras eram como uma gravação cheia de estática e ele não sabia se seria compreendido.
Seus olhos jamais deixaram os olhos do outro, nem uma só vez.
“Deixe-me consumir sua pele”, ele ofereceu, gentilmente.
Claro, havia uma implicação no ar.
Aí você pode consumir a minha.
Taeyang lhe encarou. Mais do que havia encarado antes, um tanto invasivo. Por um momento, Jongseob temeu de verdade que a estática tivesse sido alta demais, sua intenção perdida na falta de clareza.
Mas num piscar de olhos, o olhar do outro suavizou mais uma vez e ele já empurrava o corpo nu para frente, seus joelhos batendo no fundo da banheira enquanto se movia em sua direção. Jongseob nem teve tempo de respirar antes que ele colocasse a mão em sua nuca e puxasse seu rosto para o ombro dele.
Soou como um “é claro”.
Jongseob respirou cuidadosamente contra ele, os olhos se fechando ante a superfície intricadamente construída de escápulas tão firmes quanto concreto frio.
Ergueu lentamente as mãos para segurá-lo também, para cavar os dedos em sua pele e delicadamente sentir sua estrutura óssea, querendo saber precisamente como cada articulação se conectava dos menores ossos aos maiores. Pressionou as pontas contra elas e confirmou para si mesmo quão perfeitamente esculpido o outro era, quão belo era por inteiro, mesmo que ele próprio nem sempre concordasse com isso.
Taeyang como Taeyang, a pessoa que ele via, sem nenhum gênero a pairar sobre si, era inerentemente bonito, e sempre seria. Ele queria ser capaz de transmitir isso perfeitamente ao outro e fazê-lo guardar confidencialmente dentro do coração para analisar zelosamente depois, numa hora em que a disforia não estivesse cravando as unhas em sua autoimagem.
Mas Jongseob não era bom com palavras quando nem conseguia dizer o mesmo sobre si mesmo.
Só pôde torcer para que seu fascínio pudesse ser absolvido através da carne.
O outro o empurrou em direção a uma solução melhor com uma mordida sem misericórdia contra a concha de sua orelha. Quando os dentes do outro se afundaram naquele ponto sensível, os dedos de Jongseob pressionaram seu corpo com mais força, e seus dentes de cima se chocaram dolorosamente contra os debaixo, uma colisão áspera que fez seus ouvidos zumbirem.
Gotas de sangue caíram em seu ombro e escorreram, pintando-o com si mesmo.
A dor era imensurável, mas o que verdadeiramente fez Jongseob tremer foi sentir o engolir do outro perto de sua orelha, seus lábios úmidos roçando fracamente o local que mordera. A alimentação sem pudor.
O jeito de Taeyang encorajá-lo a tomar o que quisesse sem hesitação. Tomando primeiro, obviamente.
Era revoltante.
Era amável.
Lhe fez desejá-lo tanto que a perspectiva de não se alimentar dele de volta parecia mais dolorosa do que o pequeno pedaço arrancado de sua orelha.
Seus dedos deslizaram para cima, pressionando até agarrarem os ombros do outro e ele chegou perto, mais perto, até a forma dos seus próprios ossos se imprimir nos dele.
Então, como um gato faminto, ele deixou os caninos à mostra e começou a dilacerá-lo.
Mais sangue fluiu e caiu na banheira, misturando-se ao ar deles.
Comments
No comments yet. Be the first to react!